Alfredo Pereira, Alfredo Baiano, o Homem do Povo
Por Núbio Brito
"O homem do povo", assim era conhecido Alfredo Pereira de Melo ou ainda Alfredo Baiano, ex-vice-prefeito de Aliança do Tocantins e atualmente vereador. No auge dos seus 68 anos de idade, era um 'filósofo sem formação'. Tendo cursado apenas a 4ª série do ensino fundamental era, também, um administrador nato e de pulso forte.
Na Bahia, ainda jovem, Alfredo vivia na zona rural. No Tocantins, antigo norte goiano, seu dia a dia era da lavoura para a pecuária, tornando-se um dos homens mais bem sucedidos de Aliança. Quando interrogado sobre ser o dono da cidade, dizia com modéstia, "Isso é bondade do povo", sobre as dezenas de imóveis espalhados pelo lugar, "Isso é verdade, temos uns terreninhos por aí".
Mas não foi sempre assim. O homem do povo passou por dificuldades no passado. Relatava que já havia sofrido na pele muita humilhação quando chegou a Aliança, cidade em que vivia desde 1961. Alfredo carregou fardos pesados e quando precisava de avalista para adquirir empréstimos no banco, era um 'sacrifício'. Dizia que cansou de ir a pé para sua fazenda, com 30, 40 quilos de alimentos nas costas e muitas vezes alguém passava e não dava carona. Pessoa que ele preserva a identidade, dizendo apenas que hoje é um amigo. Sempre tinha algumas frases prontas como: "Para aqueles que me jogaram espinhos, jogo flores". O homem do povo dizia que nessas viagens à pé, quando estava muito cansado, parava debaixo das árvores e pedia a 'Deus' que, se melhorasse a condição financeira, ele não deixaria ninguém na estrada. Em seu carro ta escrito 'carro do povo' e confessava que tinha gente que o criticava, mas só ele sabia o compromisso que tinha consigo mesmo.
Na política, Alfredo Baiano entrou cedo. Dizia-se agradecido a Antônio Luis Costa (in memorian), pelas 'orientações'. Em 1979 assumiu seu primeiro cargo público, o de subprefeito, na época Aliança era distrito de Gurupi. Depois da emancipação, foi vereador por quatro mandatos seguidos, depois foi vice-prefeito, e recentemente eleito, novamente vereador.
Bem despojado, e como tudo indica, um galanteador incondicional, Alfredo Baiano teve nove filhos, seis netos e uma bisneta. Do primeiro casamento, com Inês Vieira, duas filhas e um filho. Com a esposa Filomena Pereira dos Santos, a dona Filó, com quem viveu mais de 30 anos, três filhas. E de umas 'besteiras aprontadas' como ele próprio relatava, teve mais três filhos. Ele falava que todos eram bons e aceitava cada um do seu jeito, mas que sua maior riqueza era os netos, principalmente, o Alfredo Neto e o Cícero que eram criados por ele, pois os meninos o confortavam nas horas de agonia.
Alfredo Pereira de Melo, 68 anos, nasceu em Itaberaba BA. Veio em 1951 da Bahia para Ceres, depois Cariri, depois Aliança, em 1961. Figura simples, palavras mais simples ainda. Homem surrado pela vida, mesmo assim agradecido por tudo que Deus lhe havia dado. Conversar com esse moço era fácil, bastava chegar a sua cidade e procurar a qualquer morador que a informação sobre seu paradeiro era imediata.
Alfredo Baiano morreu na manhã do dia 13 de janeiro de 2010, em Aliança do Tocantins, vitima de uma parada cardíaca.
Confira a entrevista à baixo, feita em 2008, em sua casa, ao lado de sua esposa Filò e seus dois netos.
O que lhe trouxe para Aliança?
Alfredo Baiano - Foi a maneira que encontrei de melhorar a minha vida, e graças a Deus, gostei da região e permaneço até hoje.
Quem lhe trouxe para Aliança do Tocantins?
Alfredo Baiano - Foi Sabino Silveira.
O senhor fazia o quê?
Alfredo Baiano - Eu morava em Cariri e naquela época eu morava numa fazenda que não tinha documento, aí chegou os donos e nos desapropriou e nos indenizou e graças a Deus encontramos o Sabino Silveira, que nos fez o convite para vir a Aliança. Aqui conseguimos umas terras do Estado e deu certo que até hoje permaneço aqui.
Hoje o senhor possui quantas cabeças de gado?
Alfredo Baiano - Risos. Rapaz, hoje eu tenho umas 1.200 rês.
Dizem que o senhor é praticamente o dono das terras da cidade. É verdade?
Alfredo Baiano - Não. Isso é bondade do povo, é que tem alguém aqui que tem mais do que eu, mas to feliz com a minha vida graças a Deus. A gente tem uns terrenos por aí.
O que mais lhe agrada em Aliança?
Alfredo Baiano Olha, é a amizade. Aliança é um lugar bom pra gente morar, não é bom pra ganhar dinheiro, mas pra morar não precisa ter lugar melhor, desde que se faça certa economia, Aliança dá pra viver.
É verdade que o senhor é um verdadeiro pão-duro?
Alfredo Baiano Bom... essa estória de pão-duro ou de pão mole é o povo quem inventa. Pois, a gente pode fazer tudo pro povo, mas ainda ta fazendo pouco.
O senhor é considerado o homem do povo, por quê?
Alfredo Baiano - Porque eu gosto de servir o povo. Eu fico feliz, pois naquela época que eu cheguei aqui era difícil demais. Eu fui muito humilhado; sempre eu pensava dentro de mim, se Deus me ajudar que eu melhorar minha situação financeira eu ia ajudar as pessoas mais humildes e eu dei uma controlada e por isso que eu ajudo as pessoas, pois to cumprindo aquilo que eu pedi a Deus e ele me deu.
Quem lhe humilhou?
Alfredo Baiano - Eu não posso falar isso, é chato. Isso pode magoar as pessoas que hoje são amigos. Mas eu fui muito humilhado naquela época que eu cheguei, pois não tinha certos esclarecimentos e alguém me pisou demais. Então, aqueles que me jogaram espinhos eu jogo flores.
Que tipos de humilhação fizeram ao senhor?
Alfredo Baiano - Quando eu tentava fazer um financiamento no banco, que necessitava de um aval, tinha deles que não avalizavam pra mim porque eu era pobre. Isso, muitas pessoas falavam pra mim. Eu ia devagarzinho e Deus me ajudava que eu conseguia alguém que avalizava pra mim e eu ia crescendo aos poucos.
Como surgiu a política na sua vida?
Alfredo Baiano - Quem me colocou na política foi Antonio Luiz Costa, eu agradeço porque ele foi a pessoa que me orientou e eu entrei e tenho dado sorte. Porque nunca perdi uma eleição em Aliança.
Isso acontece porque o senhor é bondoso com o povo ou porque é um político nato?
Alfredo Baiano - Não vou dizer que sou uma pessoa bondosa, pois se eu disser isso eu estou exagerando, mas o que eu posso fazer pelo povo eu faço. De certo alguém confia em mim, porque uma vez pra você se eleger tudo bem, mas cinco vezes como eu fui na boca da urna, só vai se tiver serviço prestado, se agradar a sociedade, senão não vai.
O senhor é um homem de muitos amigos?
Alfredo Baiano - No meu conhecimento não tenho inimigos, detesto inimizades, não é porque não falta oportunidade, mas eu prefiro ser prejudicado que prejudicar alguém.
Que conselho daria aos jovens?
Alfredo Baiano - Aconselho a estudar, se formar, porque hoje se o homem não estuda não se preparar, vai sofrer as conseqüências depois.
Como está vendo a prostituição e a droga entre os jovens?
Alfredo Baiano - Tem noite que isso me preocupa demais. Eles tão vaidoso e adepois vão se arrepender. O caminho que eles tão seguindo é totalmente ao contrário. Confio em Deus, nos professores, nas autoridades, conselho tutelar para organizar esses jovens, pois se não a coisa tá feia.
Quem o senhor destacaria como personalidades importantes de Aliança?
Alfredo Baiano - Têm vários: David Araújo, Antonio Luis Costa, Borginho, Cipriano. Infelizmente quase todos Deus já levou. Hoje os que permanecem aqui nós temos que sentar prá colocar na cabeça, no lugar. A gente acha que a pessoa tá desenvolvendo o município, depois acha que não. A coisa tá feia.
Mas deixa eu falar uma coisa. Olha, no inicio eu falei que fui muito humilhado, pois muitas vezes eu saia daqui prá minha fazenda, beirando o córrego da cobra, com 30, 40 quilos de alimentos nas costas, a pé. E alguém passava e não me dava carona. Às vezes eu parava debaixo das árvores e pedia se deus me ajudasse melhorar de condição que eu nunca ia deixar ninguém na estrada e vou ajudar os mais necessitados. Você pode olhar no meu carro, tá escrito atrás, carro do povo, tem gente que critica, mas só eu sei o compromisso que eu tenho comigo mesmo. Sobre as doações eu vou ajudar as entidades como o Pedra Verde, sou muito admirador do Pedra Verde, do Danúbio e do Vilmone. E eu gostaria de que você pegasse os documentos do Pedra Verde pra verificar os planos que eles tem. Eles me pediram dois terrenos e disseram que iam comprar mais, pois a intenção é de se tornar num grande apoio da sociedade. Ai eu perguntei, mais quantos vocês precisam, disseram que precisava de 10 terrenos e eu dei 12. Eles ficaram contentes.
Aí doei pra casa do mel, para AMAPA (Associação de Mulheres Artesãs de Aliança), dois terrenos, pro posto de gasolina, e tudo é gratuito e quem quiser pode vir que eu adoo sem nenhum interesse.